Análise: com 121 deputados, PL se rende a Hugo Motta e desperdiça a maior bancada desde 1988

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Análise. Este texto traz a avaliação do Arauto do Vale sobre os fatos relatados.

A bancada do PL deve apoiar a reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara, segundo apuração da CNN Brasil. A posição será definida em reunião na terça-feira (3), às 18h, menos de um mês depois de o partido eleger 121 deputados, a maior bancada de uma legenda desde a Constituição de 1988.

O desfecho diz mais sobre a cúpula do partido do que sobre o seu tamanho. Com o maior número de cadeiras em quase quatro décadas, as lideranças do PL não conseguiram construir uma candidatura própria nem impor as condições da disputa. Agora se preparam para entrar, como sócias menores, num bloco montado justamente para conter o PL.

A maior bancada do PL desde 1988

Fachada do Congresso Nacional, onde a bancada do PL será a maior da Câmara
Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Senado Federal / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Nas eleições de 4 de outubro, a bancada do PL saltou de 99 para 121 deputados. Desde a Constituição de 1988, nenhum partido elegeu tantos: o recorde anterior era do PMDB, com cerca de 108 cadeiras em 1990. Só o PMDB de 1986, que elegeu 260 constituintes, chegou mais longe.

A distância para o segundo colocado é grande. O PT terá 70 deputados, e a federação com PCdoB e PV, 88. No Senado, o PL também será a maior bancada a partir de 2027, com 28 senadores.

Um bloco criado para conter o PL

Na terça-feira (27), a federação PT-PCdoB-PV anunciou, por unanimidade, apoio à reeleição de Motta. O bloco em formação pode reunir até 328 dos 513 deputados, com União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB-Cidadania. Segundo o InfoMoney, um dos objetivos da articulação é reduzir o espaço do PL.

A ordem de prioridade também está clara. De acordo com deputados ouvidos pela CNN, Motta disse que vai ouvir o PL, mas que o PT terá prioridade. O PT, por sua vez, ameaça deixar o bloco se Motta fechar acordo com o PL.

Ou seja: a maior bancada da Câmara se prepara para entrar por último, sem garantia de nada, num grupo em que o maior adversário tem precedência.

Onde falhou a articulação da bancada do PL

Palácio do Congresso Nacional; bancada do PL discute apoio a Hugo Motta
Palácio do Congresso Nacional. Foto: Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Logo após a eleição, analistas viam o PL em posição de comandar a negociação. Somado ao Novo e à federação União Progressista, o partido chegaria a cerca de 218 votos, segundo a Gazeta do Povo. Faltariam 39 para os 257 necessários, num universo em que Podemos, PRD, Avante e parte do PSD eram citados como possíveis aliados, e em uma eleição de voto secreto.

Essa construção nunca saiu do papel. Os nomes de Sóstenes Cavalcante e Altineu Côrtes chegaram a ser cogitados, mas a ideia de candidatura própria perdeu força antes mesmo de ser testada. Enquanto isso, Motta somou 15 partidos e transformou a eleição de fevereiro em fato consumado.

O argumento que prevaleceu é defensivo: o medo de ficar fora do bloco e escolher por último as comissões, inclusive a de Constituição e Justiça, que Nikolas Ferreira quer presidir. Uma bancada de 121 deputados que negocia por medo de perder uma comissão revela que suas lideranças não souberam transformar votos em poder.

A estratégia também divide forças. Ao mesmo tempo em que se acomoda na Câmara, o partido promete enfrentar Davi Alcolumbre no Senado com Rogério Marinho, embora Alcolumbre diga ter ao menos 48 votos. O PL corre o risco de sair sem o comando de nenhuma das duas Casas, como o Arauto do Vale já mostrou ao tratar da resistência à reeleição de Alcolumbre.

O que dizem os defensores do acordo

A ala liderada pelo presidente do partido, Valdemar Costa Neto, sustenta que recusar um acordo com Motta desperdiçaria justamente o peso da maior bancada. Com 15 partidos já ao lado do presidente da Câmara, inclusive o PT, uma candidatura própria tenderia à derrota e deixaria o PL sem espaço na divisão das comissões.

O raciocínio é pragmático, mas confirma o diagnóstico: o PL chega a essa escolha porque deixou que outros organizassem o jogo primeiro. A ala mais radical da bancada resiste ao acordo por causa da proximidade de Motta com o presidente Lula (PT).

O que acontece agora com a bancada do PL

Cúpulas da Câmara e do Senado; bancada do PL terá 121 deputados em 2027
Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Senado Federal / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A reunião de terça-feira deve formalizar a posição. A eleição para a Mesa da Câmara está marcada para 1º de fevereiro de 2027, em votação secreta, o que deixa espaço para que parte da bancada do PL vote de forma diferente da orientação.

Até lá, o partido terá de explicar ao próprio eleitor por que a maior bancada em quase 40 anos vai ajudar a reconduzir um presidente que já declarou que o PT vem primeiro.

Redação: Arauto do Vale, com informações da CNN Brasil, do InfoMoney, da Gazeta do Povo, de O Tempo, do Diap e do BPMoney.

Imagem destacada: Congresso Nacional ao amanhecer. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

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